Gilberto Brandão Marcon

Escrever é um encontro marcado com a própria alma.

Textos




Versos de Noite



Silhueta esquecida vaga solitária
pela longa avenida emoldurada
pela janela do quarto do apartamento.
Andar feminino
toca o chão em encantadora leveza.
Não é rápido, não é lento,
é uma espécie de flutuar metafísico.
Não importa o que compõe o quadro,
se faz-se cheio ou vazio.
Prevalece apenas única,
dona do olhar, posseira de versos,
viajante das trilhas sensoriais do poeta,
que a mescla em tintas de noite,
que respinga tons de lua e estrelas.
E para quem está estático
Parece de repente invadido por movimento.
O coração se enche de emoções,
envia sentimentos
aos mais longínquos pontos do corpo.
O cérebro se livra da razão
e vaga, disperso pela imaginação.
São gestos construídos de silêncio,
São toques mesclados de sensualidade.
Um ritual de carinho
que desliza livre pela epiderme.
Sujeito e objeto numa única criação.
O universo das ilusões
brinca com os fatos da realidade.
Silhueta de fêmea, imagem de flor.
Flor em mutação que vira mulher,
mulher que transcende
e se faz ninfa, depois fada,
para encantar-se como que anjo de luz.
Perdido de si, encontrando-se distante.
São passos que alinham-se no presente,
para depois se dirigir ao passado,
para então fingir ir ao futuro.
Solidão de que está acompanhado,
companhia que visita quem está sozinho.
Renascem momentos, findam outros,
mas a memória, as lembranças vivem.
Ilha perdida em meio a grande oceano.
Oásis de um deserto já esquecido.
No vazio, a ironia despreza o cotidiano,
e a silhueta caminha levando as horas.
E o tempo desnudo foge envergonhado.
O céu noturno ri dos viventes em transe,
num planeta distante, numa estrela longínqua.
Bem vindos e adeuses se mesclam
em uma eterna comunhão do todo.
E o poeta mergulha na noite,
e a noite lhe abraça com paixão.
E a silhueta de mulher a tudo domina.
Ri de si, ri do evento,
e sorri para o olhar que a espia.
Gilberto Brandão Marcon
Enviado por Gilberto Brandão Marcon em 31/01/2020
Alterado em 31/01/2020
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