Gilberto Brandão Marcon

Escrever é um encontro marcado com a própria alma.

Textos


Discurso de Posse Cadeira nº 06 - Patrono Mario Quintana - Academia de Letras de São João da Boa Vista-SP - Parte 1

 

Prezados Confraternos e Confraternas, pois irmanados somos pelo gosto pelas letras e pela arte. Dentre estes minha deferência devida à Prezada Presidente Maria Célia Marcondes e membros da sua diretoria, excelentíssimas autoridades presentes, meus caríssimos amigos, cabe a agradável tarefa de proferir palavras sobre homens que tiveram biografias admiráveis, histórias de vida que nos ensinam e nos inspiram. Trata-se daquele de quem sinto-me profundamente honrado por ocupar sua cadeira, do nosso querido Dr Palmyro Ferrante, e que me impõe o dever de ser um digno herdeiro do patrimônio intangível de sua memória. Também sinto-me privilegiado por poder contar como patrono a figura ímpar de Mario Quintana. Sem dúvida, estou muito bem acompanhado e espero ao longo de minha história, que ainda escrevo um dia, poder-lhes retribuir a honra e o privilégio presente.

De início entendo como um dever de minha parte para com aquele de quem herdo a cadeira destacar a importância daquele que ele escolheu inicialmente para patrono, numa merecida homenagem pessoal ao seu querido tutor da infância e adolescência, Dr José de Souza Lima, dentista de ofício, que foi homenageado até aqui como patrono da cadeira nº 6, desta Academia de Letras, e que hoje cede lugar ao novo patrono, Mario Quintana, artífice das letras.

Assim, reverencio a memória de José de Souza Lima, dentista formado em 1911, e que trabalhou em São João até 1932. Foi este homem que atuou como condutor do então infante Palmyro que, com oito anos, perdia o pai e começava a trabalhar para auxiliar sua mãe no sustento de sua família. Iniciava ali uma carreira da qual somente se aposentaria aos 92 anos de idade, depois de atuar ininterruptamente, sem folga, sem férias.

 O Dr.Souza Lima foi o alicerce amigo que deu a oportunidade e atuou como guia dos primeiros e decisivos passos da exemplar vida centenária que haveria de ficar na memória daqueles que conhecerem um pouco da sua história, escrita com as cores do cidadão humanista.  O Dr Palmyro assim esclareceu: “depois de alguns anos, passei a trabalhar no consultório do José de Souza Lima. [...] com a orientação do Souza Lima, passei a trabalhar como dentista-prático. Ele me ajudou muito; além da orientação, cedia-me o espaço e o material”. 

Palmyro foi filho de italianos; nos deixou em 14 de março de 2010, pouco antes de completar seus 104 anos. Filho de pai com ofício de sapateiro e mãe costureira, nascido em 7 de abril de 1906 na ‘terra dos Crepúsculos Maravilhosos’ é o único Ferranti registrado com o ‘i’ ao final, portanto, trata-se da família Ferrante com ‘e’. Tudo que se diga desta centenária vida será pouco, entretanto, suponho justo caracterizá-la a partir de duas palavras-chave: trabalho e superação.

É assim que com 22 anos irá retornar formado para sua São João no curso da Faculdade de Pharmácia e Odontologia de Ribeirão Preto, onde trabalhou durante o período de graduação não só para custear os estudos, mas também amparar a mãe viúva e seus irmãos, auxiliando em sua formação escolar. Acabará por se pós-graduar nos EUA, na universidade de Ilinhois, em Chicago, em novembro de 1951, aos 45 anos. Seu labor intenso tem a constatação de números, assim entre 1951 e 1958 tratou de mais de onze mil pacientes, com seus canais dentários curados em uma única sessão!

O trabalho para ele foi sempre seu segundo lar. E trabalhou não apenas para si, não apenas para a família, mas para a comunidade. Foi Membro do Conselho da Santa Casa de Misericórdia Carolina Malheiros, a partir de 1939, com 33 anos para depois, por 37 anos, inclusive como Provedor, atuar na instituição participando ativamente da construção do seu prédio novo, terminado em 1962. Foi também um dos principais organizadores do Rotary de São João da Boa Vista, para o qual entrou em 1940. Entusiasta e gestor nato, ocupou todos os cargos possíveis e sempre será lembrado como o conselheiro e instrutor dos mais novos. Também foi fundador em 1957 da Associação dos Cirurgiões Dentistas de São João.

Profissional sim, mas daqueles mais companheiros de lida do que um concorrente, uma espécie de professor nato, em suas palavras: “minha vontade era crescer dentro da profissão e ensinar o que eu pudesse, transmitindo os meus conhecimentos a todos. Para tanto realizei muitos cursos, fiz muitas conferências”. Não foram poucas; no Brasil , por exemplo, lecionou em cursos de pós-graduação na sede da Associação de Cirurgiões Dentistas do Estado de São Paulo, assim na faculdade de odontologia de Alfenas, foi membro da Academia de Odontologia do Rio de Janeiro, mas seu reconhecimento foi internacional, conhecido na América Latina, atuando  também na Argentina e no Uruguai.

Homem de ciência, precocemente atuando como aprendiz na confecção de próteses dentárias, depois se graduando na área de odontologia, com sua essência prática e inovadora, acabou como um dos principais pioneiros da moderna Endodontia, sendo seu nome citado, ainda hoje, nos principais livros científicos da especialidade. Não por acaso, afinal revolucionou sua área de atuação com métodos originais e ousados, hoje utilizados e ensinados em faculdades no mundo todo.

Revolucionário, chegou a ser chamado de lunático, segundo explicação dele próprio para o Jornal O Município de 11/10/1997: “principalmente os americanos não acreditavam no tratamento dos canais e simplesmente arrancavam os dentes. Então, era um exército de desdentados, nos Estados Unidos. Por isso, aprenderam a fazer esses aparelhos móveis e dentaduras muito bem feitas. Havia umas teorias radicalistas que apontavam os dentes infectados como causa de todas as doenças, das quais sofria a humanidade, desde cabelo e dor no calcanhar. Então, tiravam os dentes”.

O resultado é que passou pela natural rejeição por que passam os inovadores, nas suas palavras: “Hoje, o método é aceito nas faculdades, mas naquele tempo, havia um tabu danado. As faculdades não aceitavam. Na Faculdade de Campinas eu estava proibido de entrar”. O reconhecimento só veio mais tarde  e talvez por isto, das muitas homenagens que recebeu,  aquela pela qual tinha carinho especial foi uma de 1996, quando  teve seu nome atribuído ao Centro de Microscopia Oral da Faculdade de Odontologia da Universidade de Campinas (UNICAMP).

O homem de letras com pleno domínio da língua portuguesa, além de amante da literatura passou, a partir de 1958, a publicar seus trabalhos em revistas nacionais e internacionais, onde foi exemplo o artigo referente ao tratamento de 340 casos de canal, publicado na conceituada norte-americana The Dental Digest, de Pittisburg, na Pensilvânia. Também publicou em revista Argentina, assim como frequentou as páginas da imprensa local. Homem das letras e de marcante atuação foi um dos fundadores da Academia de Letras, hoje esta jovem senhora de 40 anos, nascida em 1970.

O sábio: “Minha ambição é ter tranquilidade e liberdade, o resto não tem valor nenhum. Tive muitas oportunidades de trabalhar e lecionar fora de São João, mas preferi a tranquilidade da vida que levamos aqui, isso vale mais que todo dinheiro do mundo”. E a humildade o fez grande perante a vida ao falar sobre os fracassos: “os fracassos ensinam mais, todo mundo mostra seus êxitos, fracassos não. Eu sempre fiz questão de mostrar êxitos e fracassos. Não tenho vergonha de expor meus erros, principalmente se for para ensinar e evitar que outros os cometam”, um exemplo de auto-estima equilibrada.

O companheiro e esposo: “Quando era convidado pelas Universidades, fechava o consultório e partia. Viajava para congressos, dava aulas, fazia palestras, e sempre com Benedita ao meu lado. A presença dela era uma condição para eu participar de qualquer evento”, e noutra declaração: “considero-me e sou felicíssimo, sou muito bem casado – minha mulher é extraordinária, é um anjo!”. Eis seu sentir em relação a Dona Bina, com quem casou-se em dezembro de 1943, e só separou-se momentaneamente no 14 de março último como seu falecimento, uma união de 67 anos, que se restabeleceu anteontem em 19 de agosto, dado que dona Bina, que almejávamos estar aqui neste evento faleceu aos 92 anos, novamente reencontram-se, não sei do que morreu, mas a licença poética, me permite dizer que foi de saudade. Mais do que isto, na minha limitação humana quero crer que o plantio na carne, há que frutificar no jardim da alma.

Estes pais dedicados educaram os dois filhos: Vera Silvia, que tornou-se professora secundária  e Palmyro Ferranti Júnior que formou-se médico veterinário, que lhe deram 6 netos e 3 bisnetos

O humilde trabalhador incansável, tendo se aposentado com 92 anos: “Quando me aposentei, pensei: não posso cruzar os braços, preciso continuar fazendo alguma coisa e passei a integrar a diretoria do Asilo, na verdade, não faço muita coisa, mas participo das reuniões”

O homem de essência fraternal, um irmão de todos, quando numa oportunidade, se referindo à sua entrada no Rotary, em 1940: “sempre tive prazer em fazer parte de associações. Gostei daquela reunião semanal onde a gente encontrava pessoas, cada uma de um setor da sociedade, e discutia problemas e projetos”. E depois completando, num sentido mais amplo: “acho que o importante na vida é ter amigos. Há muitos anos,  através do Rotary e do Rádio, fui fazendo amigos por esse Brasil todo. Você não pode imaginar quanta gente conheci e o que vale um amigo, a gente não pode calcular”.

 A cordialidade e simplicidade ao descrever sua luta, junto com os seus pares, para a construção do novo prédio da Santa Casa: “fizemos muitas viagens a São Paulo em busca de verbas e levávamos muitos agrados que nem dá para contar. Eu e o Maríngolo levávamos de gaiola cheia de passarinhos à linguiça, queijo mineiro e muita pinga para sermos bem atendidos. Com isso, e algumas campanhas feitas junto à comunidade, construímos o hospital”.

A gratidão, só encontrada nos nobres de coração: “Tenho uma vida admirável, mas acredito que tudo isso é uma consequência desse pouco que fiz em prol de meu irmão”. A alma de eterno construtor: “Gosto de cuidar das minhas plantinhas, tenho aqui os vasinhos de onze horas e minhas roseiras que gosto de ver brotar, crescer e agradecer”. Eis aí um homem que foi além, cultivou as sagradas sementes da amizade e do fraterno amor típico.

Eu, como homem que aprecio o amor e a justiça, não apenas nos seus aspectos filosóficos, mas na sua sensata aplicação, sinto-me profundamente honrado em ocupar a cadeira de homem de tamanha grandeza de coração, um verdadeiro cavalheiro naquilo que existe de mais digno e virtuoso desta palavra, alguém de quem se pode falar, sem temor: foi um homem de bem. Espero contribuir neste momento para sua merecida imortalidade, pois ao lhe trazer em letras, almejei a presença de sua alma iluminada pela simplicidade que só os grandes sabem ter.  

(Continua) : 

http://www.recantodasletras.com.br/discursos/2479857

 


Gilberto Brandão Marcon
Enviado por Gilberto Brandão Marcon em 05/09/2010
Alterado em 05/09/2010
Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras